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Contra a desaceleração, mais integração

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Ph. GETTY IMAGES

Por Juan E. Notaro

Presidente Executivo do FONPLATA

A chegada da economista búlgara Kristalina Georgieva como Diretora-Gerente do Fundo Monetário Internacional, no lugar da francesa Christine Lagarde, veio acompanhada de más notícias para a economia mundial: o mundo inteiro está em desaceleração.

Qual a gravidade da situação? Segundo Georgieva, cerca de 90% dos países sofrerão desaceleração em maior ou menor grau. A nova diretora das finanças mundiais cita três fatores fundamentais para explicar a diminuição do crescimento: os conflitos comerciais (encabeçados por China-EUA), a geopolítica e o Brexit.

Na América Latina, a estes três fatores soma-se o fim do “boom das commodities”, que tanto contribuiu para o crescimento da região na primeira década e meia deste século e, sobretudo, para o avanço de muitas conquistas e reivindicações sociais na maioria dos países.

Tudo isto ocorre ao final de um ano em que vários países da região atravessam grandes desafios sociais e políticos, que podem determinar, em boa medida, seu futuro papel no contexto das relações intrarregionais.

Em suma, estamos numa situação difícil e diante de um desafio que não é menor: recuperar o caminho do crescimento, do desenvolvimento e da inclusão dos mais necessitados, num contexto econômico de desaceleração em meio a um panorama político complexo.

Em busca de respostas e possíveis vias de ação, consultei o “Monitor de Comercio e Integración 2019: Cuesta arriba: América Latina y el Caribe frente a la desaceleración del comercio mundial”, elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A equipe de pesquisadores do BID enfoca os intercâmbios comerciais e os mecanismos de integração latino-americana. O diagnóstico é claro: o comércio contraiu-se notavelmente entre a segunda metade de 2018 e a primeira de 2019 (tendência que deve continuar no segundo semestre).

No caso concreto dos países membros do FONPLATA (Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai), o documento fala de “queda”, “colapso” e “restrições” no comércio intrarregional, especialmente de matérias primas e manufaturas.

O panorama é um pouco mais alentador em relação ao comércio de serviços, especialmente empresariais, de tecnologia e de conhecimento, nos quais os fluxos de intercâmbio são positivos para quase todos os países.

Ainda que não tão significativo em volume, como o setor de manufaturas, os números apontam para uma tendência positiva em relação aos esforços de muitos países em diversificar sua economia e suas fontes de receitas.

Para isso tem contribuído, entre outras coisas, a existência de setores produtivos operando de acordo com padrões internacionais e com suficiente flexibilidade para responder à conjuntura. Como no caso recente da febre suína na China, a que Argentina, Brasil e Uruguai puderam reagir rapidamente e conseguiram posicionar-se como os principais exportadores de carne bovina ao gigante asiático.

Apesar das previsões de que os preços das matérias primas (commodities) devem se manter estáveis ou tenderão à baixa, o que indicam as projeções do Fórum Econômico Mundial é que a maioria dos países membros do FONPLATA seguirão experimentando taxas positivas de crescimento em 2020.

Entretanto, o relatório do BID destaca a importância de ativar “novos motores” para o crescimento dos países. Nesse sentido, recomenda impulsionar a “integração produtiva” e a criação de “cadeias regionais de valor”, especialmente para as manufaturas e os processos baseados em recursos naturais.

Em outras palavras, num contexto global de desaceleração econômica, a prioridade, segundo o BID, é minimizar os riscos externos, fortalecer os mecanismos de integração e melhorar o acompanhamento do setor privado.

Para tanto, é indispensável seguir investindo em infraestrutura para a integração, de forma a reduzir os custos logísticos. Esta infraestrutura para a integração tem sido nossa especialidade no FONPLATA nestes 45 anos.

Diante de uma economia que se desacelera, a resposta deve ser acelerar a integração. É um processo com o qual todos ganhamos e que nos ajudará, uma vez que melhorem as condições, a incorporar-nos mais rapidamente à autoestrada do crescimento e do desenvolvimento. 

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Texto publicado originalmente en la columna mensual de Juan E. Notaro en el Huffington Post.

10/12/2019