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Investimentos verdes: antes louváveis, agora urgentes

Ph: EFE
Ph: EFE

Juan E. Notaro
Presidente Executivo do FONPLATA - Banco de Desenvolvimento.

Como já aconteceu com a energia e o transporte, as finanças sustentáveis também mostram que são rentáveis

Há poucos anos, falar de investimentos verdes era quase um oxímoro. Cuidar do planeta estava bem, mas imaginar que seria possível fazer dinheiro ao abraçar princípios ecológicos era pouco mais que um delírio.

No entanto, no momento em que escrevo estas linhas, a expressão retorna quase 21 milhões de resultados em um mecanismo de busca na internet, e há uma gama cada vez mais variada de instrumentos financeiros de todos os tipos que visam, justamente, conciliar as duas coisas.

Também é verdade que ainda no início deste século, as energias alternativas aos combustíveis fósseis eram excessivamente caras, os carros elétricos eram tema de ficção científica e investir em sustentabilidade tinha mais a ver com filantropia do que com rendimento.

A percepção geral da comunidade de investidores era de que esses esforços eram louváveis, mas de forma alguma rentáveis.

Porém, a tecnologia avançou, alguns governos e empresas se comprometeram com a busca de novas opções e as mudanças climáticas e suas consequências se tornaram mais evidentes. Tudo isso fez as coisas começarem a mudar.

Na verdade, eles mudaram tanto que nos últimos 14 anos o mercado dos chamados títulos verdes cresceu a uma taxa de 95% ao ano, e estima-se que até dezembro de 2020 tenha-se emitido um trilhão de dólares[1].

Embora em outras áreas os termos "verde", "sustentável" ou "ecológico" possam significar uma diferença de preço significativa em relação ao "normal", os títulos verdes geralmente têm o mesmo preço que os demais títulos.

Investir em títulos verdes, então, é o mesmo que investir em qualquer outro título, mas com um componente adicional. E ainda com importantes benefícios tanto para emissores quanto para investidores.

Embora exijam mais trabalho do que um título "normal" (voltarei a isso mais adiante), os emissores têm a vantagem de poder “mostrar" seus ativos verdes, melhorar sua imagem pública e diversificar sua base de investidores.

Para os investidores, há a vantagem adicional de que os requisitos de transparência e uso adequado dos recursos são muito mais exigentes. Na verdade, os próprios investidores estão mais atentos ao destino final de seu investimento.

Mas eles estão muito mais atentos ainda ao seu impacto real nos problemas que pretendem resolver (ou reduzir). Os títulos verdes, portanto, exigem um muito controle de como os fundos são usados e um esforço meticuloso para relatar os resultados. É por isso que eles dão mais trabalho.

Há também muito mais vigilância por parte dos órgãos ambientais e da sociedade civil para que esse tipo de investimento não se transforme em um mero exercício de relações públicas para melhorar a imagem de investidores e empresas (o chamado "greenwashing").

É por isso que os emissores dedicam grande esforço para desenhar instrumentos que realmente contribuam para a sustentabilidade, e que não se tornem um mero rótulo para melhorar a aparência das carteiras de investimentos.

Não há dúvida de que um momento chave para esse avanço nos investimentos verdes foi a Cúpula do Clima, em Paris (2015)[2]. Os compromissos que o mundo assumiu para cuidar do planeta tiveram, naturalmente, impacto no mundo financeiro.

Basicamente, a comunidade investidora percebeu que investir no longo prazo não adiantaria se a boa saúde do planeta e a sobrevivência humana não estivessem garantidas, também, no longo prazo.

É um esforço global no qual os bancos centrais, bancos de desenvolvimento, bancos privados e centenas de governos em todo o mundo estão envolvidos. O financiamento verde veio para ficar e faz cada vez mais sentido.

Na verdade, as cláusulas de sustentabilidade e mitigação das mudanças climáticas já são praticamente o padrão em quase todos os contratos de empréstimos de bancos de desenvolvimento no mundo e na América Latina.

No contexto atual, apesar de suas consequências devastadoras para milhões de famílias em todo o mundo, a necessária recuperação pós-COVID abre as portas para imaginar a construção de uma nova economia mais verde e mais sustentável.

Não se trata mais de ter mais opções na hora de investir. É a realidade que exige que os investidores olhem para muito além do mero retorno e coloquem o foco no impacto social e ambiental, sem descuidar do rendimento.

Ou seja, você pode proteger o meio ambiente e, ao mesmo tempo, obter benefícios financeiros. Os investimentos verdes, antes louváveis, agora -- para o bem da humanidade -- são absolutamente urgentes.

Texto publicado originalmente na coluna mensal de Juan E. Notaro no Huffington Post.

Outras fontes consultadas [3] [4]


[1] Climate Bonds Initiative (2021). Explaining Green Bonds (web): https://www.climatebonds.net/market/explaining-green-bonds

[2] United Nations Climate Change (2021). El Acuerdo de París (web). https://unfccc.int/es/process-and-meetings/the-paris-agreement/el-acuerdo-de-paris

[3] FORBES (MX) (2021). Inversión verde crece en Latinoamérica (Web): https://www.forbes.com.mx/inversion-verde-crece-en-latinoamerica-como-plan-de-supervivencia/

[4] BBC Mundo (2020). Ganar dinero y descontaminar el planeta (Web): https://www.bbc.com/mundo/noticias-55255101

16/07/2021