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Que o futuro não seja como o passado

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Juan E. Notaro

Presidente Executivo do FONPLATA

Medidas para superar os efeitos econômicos da COVID-19 devem evitar o retorno da dependência de matérias-primas

Os governos da América Latina continuam tomando medidas para tentar impedir o avanço da COVID-19 na região. Embora os desafios para a saúde continuem significativos, também existem emergências para atender na frente econômica.

Um relatório recente da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) projeta que, como resultado da crise sanitária, quase três milhões de empresas poderiam fechar, representando perda de mais de 8 milhões de empregos em toda a região.

Talvez o mais preocupante deste panorama seja que a grande maioria dos empregos que deixarão de existir correspondem a pequenas, médias e microempresas (MPME).

O comércio varejista, serviços como cabeleireiro ou lavanderia, restaurantes e outros estabelecimentos do setor de alimentação, serviços de turismo e atividades industriais são os setores mais afetados.

Com a diminuição da atividade econômica, muitas dessas empresas já se encontram na situação de não conseguirem fazer face aos salários, pagar os aluguéis ou cumprir com suas obrigações fiscais ou de pagamento de serviços.

Claro está que a situação também afeta as grandes empresas, mas as MPMEs representam mais de 90% do total de empresas e geram 60% do emprego formal, de acordo com dados do CAF-Banco de Desenvolvimento.

Por isso é tão importante que governos e agências de fomento façam tudo o que estiver ao seu alcance para garantir a sobrevivência do setor.

No entanto, a defesa das MPMEs vai além da mera sobrevivência do setor. Trata-se também de proteger a diversidade de nossas economias.

“Se não forem implementadas políticas adequadas para fortalecer esses setores produtivos, existe grande probabilidade de que se gere uma mudança estrutural regressiva que levaria à reprimarização das economias da região”, alerta Alicia Bárcena, Secretária Executiva da CEPAL.

Ou seja, a perda da industrialização, da inovação e de outros fatores de valor agregado, o que nos obrigaria, uma vez mais, a depender quase que exclusivamente das exportações de produtos primários.

Embora seja verdade que boa parte da economia latino-americana continua a se basear na exportação de matérias-primas, as tentativas (notáveis, em alguns casos) de nos distanciarmos desse modelo podem ser truncadas pela pandemia.

Expandir os prazos e o alcance das linhas de intervenção em termos de liquidez e financiamento às empresas, bem como as transferências diretas e os empréstimos em condições favoráveis a trabalhadores autônomos, micro e pequenas empresas estão entre as ações recomendadas pela CEPAL e estão sendo implementadas pela maioria dos países.

Ao mesmo tempo, os bancos de desenvolvimento da região abriram linhas de crédito e flexibilizaram a concessão de empréstimos tanto para atender a emergência sanitária quanto para financiar esses planos de proteção às empresas.

No FONPLATA, Banco de Desenvolvimento, instituição que presido, destaco especialmente a aprovação de US$ 45 milhões para financiar o “Programa de Assistência Financeira a Micro e Pequenas Empresas” no Uruguai, que será liderado pela Agência de Desenvolvimento Nacional (ANDE) e que se soma aos US$ 15 milhões que aprovamos em abril.

No Uruguai, as MPMEs representam 99,5% do setor, gerando aproximadamente 70% dos empregos. De um total de 200 mil empresas, 83% são microempresas e cerca de 14% são pequenas empresas.

O programa permite que mais de 65 mil empresários tenham acesso a empréstimo aprovado sem exigência de garantia nem cobrança de juros. A ANDE também oferecerá empréstimos em condições favoráveis para capital de giro, investimento e reperfilamento de dívidas.

Essa iniciativa se soma ao trabalho que já vínhamos realizando no FONPLATA, desde antes da pandemia, para apoiar as MPMEs em nossos países membros, como fizemos na Argentina e no Paraguai.

Se procuramos superar da melhor forma possível os efeitos econômicos da COVID, se nos empenhamos em respaldar setores vitais da economia e se queremos que o futuro não seja como o passado, devemos seguir nessa direção.

É um compromisso que assumimos no FONPLATA, em sintonia com os governos e demais bancos de desenvolvimento da região. Superaremos isso juntos.

Texto publicado originalmente na coluna mensal de Juan E. Notaro no Huffington Post.

25/08/2020